Preparar a continuidade antes de surgir a crise
As notícias de hoje mostram que o risco deixou de ser tratado como uma exceção passageira. Está a transformar-se numa condição permanente de funcionamento para governos, empresas e serviços essenciais.
Na Ucrânia, até um autocarro ou um comboio de passageiros pode tornar-se alvo. Na Europa, fenómenos climáticos extremos expõem uma diferença crescente entre as perdas económicas e aquilo que está coberto por seguros. No transporte aéreo, uma subida rápida do combustível obriga companhias a rever rotas que pareciam viáveis poucos meses antes. Em todos estes casos, o problema não é apenas o acontecimento inicial, mas a capacidade de continuar a operar depois dele.
A resposta europeia procura criar estruturas partilhadas. A cooperação industrial do Benelux pretende aumentar a produção e combinar competências que cada país isoladamente não possui em escala suficiente. A futura aliança climática tenta fazer algo semelhante na distribuição do risco financeiro. Contudo, um acordo ou uma aliança só ganha valor quando define responsabilidades, financiamento e capacidade de execução.
Na inteligência artificial, a proposta da OpenAI de divulgar comportamentos inesperados introduz uma ideia importante: os incidentes não devem ser tratados como acontecimentos embaraçosos a esconder. Devem produzir registos, investigação e alterações verificáveis. Esta lógica é útil para qualquer empresa. Um erro repetido sem documentação é apenas uma falha; um erro analisado pode transformar-se numa melhoria do processo.
A decisão sobre a publicidade da Google mostra igualmente que mercados digitais eficientes precisam de condições verificáveis, não apenas da promessa de que uma plataforma será imparcial. Quando uma única empresa controla várias etapas de uma transação, clientes e concorrentes têm dificuldade em perceber se recebem condições equivalentes.
Para empresários, a prioridade prática é identificar os três riscos capazes de interromper o negócio: perda de dados, indisponibilidade de um fornecedor, subida inesperada de custos ou ausência de pessoas essenciais. Depois, importa definir quem responde, que alternativa existe e durante quanto tempo a operação consegue continuar.
Preparar esta resposta tem um custo. Porém, as notícias de hoje mostram que esperar pelo problema costuma ser mais caro. Resiliência não é eliminar toda a incerteza; é impedir que uma ocorrência previsível se transforme numa crise evitável.
Análise por Ivo Gomes.