PULSO

3 de agosto de 2026

EDIÇÃO 06

EDIÇÃO 06 / 03 AGO 2026

Europa começa a fiscalizar a IA — e o petróleo cai com a esperança de um acordo no Irão

A inteligência artificial entra numa nova fase na Europa com a aplicação das obrigações de transparência do AI Act. Enquanto Bruxelas aperta a fiscalização, a DeepSeek e a Alibaba intensificam a disputa tecnológica chinesa. Nos negócios, a esperança de um acordo entre Washington e Teerão faz o petróleo cair mais de 5%, a Prysmian avança com uma aquisição de 3,8 mil milhões de dólares e a receita de IRC em Portugal recua 16,7%.

8 notícias verificadas4 IA4 Negócios1 análise por Ivo Gomes

01 / INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

04 NOTÍCIAS

01

Europa começa a fiscalizar as novas regras de transparência da IA

O AI Act entra na sua fase mais visível para consumidores e empresas, com obrigações de identificação para chatbots, deepfakes e determinados conteúdos produzidos por inteligência artificial.

Interface de inteligência artificial transparente diante de arquitetura institucional europeia

A transparência passa a ser uma obrigação operacional, mas várias regras aplicáveis aos sistemas de alto risco só chegarão em dezembro de 2027.

O que aconteceu

Desde 2 de agosto, o AI Office da Comissão Europeia e as autoridades nacionais começaram a fiscalizar uma nova fase do AI Act. Os sistemas interativos devem informar os utilizadores quando estes estão a falar com uma máquina. Imagens, vídeos e áudios que constituam deepfakes têm de ser identificados, enquanto determinados conteúdos gerados ou alterados por IA devem incluir marcas legíveis por máquinas. A Comissão disponibilizou também canais de denúncia, mecanismos para whistleblowers e orientações para fornecedores e empresas que utilizam modelos de uso geral.

Porque importa

É a primeira mudança do AI Act que deverá tornar-se visível para milhões de consumidores europeus. Empresas de publicidade, comércio eletrónico, comunicação social, apoio ao cliente e produção audiovisual passam a ter de identificar onde utilizam conteúdos sintéticos e como informam o público. O risco não é apenas jurídico: uma utilização excessiva ou confusa de etiquetas pode criar fadiga, enquanto uma aplicação demasiado permissiva deixa espaço para manipulação, fraude e desinformação.

O que acompanhar

As primeiras investigações e ações de fiscalização, a forma como os Estados-membros interpretam as obrigações, a adaptação das grandes plataformas e a aplicação das regras relativas a sistemas de alto risco, adiada para dezembro de 2027.

Ler a análise assinada por Ivo Gomes
FONTES ORIGINAISComissão Europeia Comissão Europeia — FAQ do artigo 50
02

DeepSeek apresenta modelo mais de 100 vezes mais barato por teste

O V4-Flash custa cerca de três cêntimos por teste nos benchmarks analisados, embora continue atrás dos melhores modelos em desempenho absoluto.

Núcleo de computação de inteligência artificial rodeado por unidades digitais de custo cada vez menores

A DeepSeek demonstra que, para tarefas de grande volume, o custo por resultado pode ser mais importante do que liderar os rankings de desempenho.

O que aconteceu

A DeepSeek lançou o V4-Flash, uma versão otimizada para reduzir o custo de utilização. O modelo cobra 0,14 dólares por milhão de tokens de entrada e 0,28 dólares por milhão de tokens de saída. Segundo a Artificial Analysis, o custo médio nos testes foi de aproximadamente três cêntimos, contra 86 cêntimos do Kimi K3, 1,86 dólares do GPT-5.6 Sol e cerca de 3,15 dólares do Claude Fable 5. O V4-Flash obteve 50 pontos no índice da consultora, igualando o Gemini 3.6 Flash, mas ficou atrás dos modelos mais avançados.

Porque importa

A competição não se resume a alcançar o primeiro lugar nos rankings. Um modelo suficientemente competente e radicalmente mais barato pode conquistar tarefas de grande volume, como classificação, análise documental, atendimento automatizado e processamento de dados. A comparação exige cautela: preços de API não incluem necessariamente os custos empresariais de integração, segurança, supervisão e correção de erros.

O que acompanhar

A qualidade do modelo em produção, o lançamento de uma eventual versão V4-Pro, a resposta dos concorrentes, a sustentabilidade destes preços e uma possível preparação da DeepSeek para entrar em bolsa.

FONTES ORIGINAISReuters Preços oficiais da API DeepSeek
03

Alibaba coloca o Qwen3.8-Max entre os modelos mais poderosos da China

O novo modelo multimodal tem 2,4 biliões de parâmetros, contexto de um milhão de tokens e utiliza apenas uma fração dos parâmetros em cada pedido.

Arquitetura neuronal modular recebe fluxos de texto, imagem e vídeo num grande sistema multimodal

A escala chama a atenção, mas a qualidade, a eficiência, a licença e o custo por tarefa serão os verdadeiros testes do novo modelo.

O que aconteceu

A Alibaba apresentou o Qwen3.8-Max como o seu maior e mais capaz modelo de inteligência artificial. O sistema tem 2,4 biliões de parâmetros, aceita texto, imagem e vídeo e consegue processar até um milhão de tokens de contexto. A arquitetura mixture-of-experts ativa apenas 95 mil milhões de parâmetros em cada pedido para reduzir custos e tempos de resposta. Na plataforma Arena.AI, tornou-se o modelo chinês de texto mais bem classificado e alcançou o segundo lugar global na análise visual, segundo os dados citados pela Reuters.

Porque importa

A China está a desenvolver modelos cada vez maiores sem abandonar a estratégia de pesos abertos e custos inferiores. Isso pressiona o modelo fechado das empresas norte-americanas e pode acelerar a adoção de tecnologia chinesa por programadores, universidades e empresas. O número de parâmetros, isoladamente, não prova superioridade: a qualidade das respostas, a eficiência, os dados de treino, a segurança e o custo continuam a ser decisivos.

O que acompanhar

A publicação do model card e dos pesos, a licença, os testes independentes, o preço da API no Alibaba Cloud e eventuais restrições geopolíticas à adoção internacional.

FONTES ORIGINAISReuters Alibaba Qwen
04

WeRide escolhe a Dinamarca para entrar na região nórdica

A empresa chinesa pretende lançar um serviço público de robotáxis no primeiro semestre de 2027, condicionado à aprovação regulatória.

Robotáxi autónomo circula numa rua nórdica com arquitetura de Copenhaga

A Europa torna-se o próximo campo de expansão das empresas chinesas de condução autónoma, mas o teste decisivo será uma operação comercial segura e sustentável.

O que aconteceu

A WeRide estabeleceu uma parceria com a operadora dinamarquesa GreenMobility para introduzir veículos autónomos de nível 4 na Dinamarca. O objetivo é disponibilizar ao público, durante o primeiro semestre de 2027, viagens realizadas pelo GXR da WeRide. A Dinamarca será o sexto mercado europeu da empresa, depois de projetos em França, Bélgica, Suíça, Espanha e Eslováquia. A operação comercial continua dependente das autorizações das autoridades dinamarquesas.

Porque importa

As empresas chinesas de condução autónoma estão a utilizar a Europa como o próximo grande campo de expansão. A fragmentação regulatória continua a ser um obstáculo, mas permite estabelecer parcerias país a país antes de uma expansão mais ampla. O verdadeiro teste não será uma demonstração técnica: será operar frotas com segurança, custos competitivos e confiança pública durante milhares de viagens reais.

O que acompanhar

A aprovação das autoridades dinamarquesas, as áreas geográficas autorizadas, a eventual necessidade de operadores de segurança, o número de viagens e ocorrências e a expansão para outros mercados nórdicos.

FONTES ORIGINAISWeRide e GreenMobility Reuters

02 / NEGÓCIOS E MERCADOS

04 NOTÍCIAS

01

Petróleo cai mais de 5% com esperança de acordo entre EUA e Irão

O Brent caiu para cerca de 83 dólares depois de Donald Trump suspender um novo ataque e procurar um acordo que permita reabrir o Estreito de Ormuz.

Petroleiro atravessa o Estreito de Ormuz enquanto os mercados energéticos recuam

O mercado está a negociar expectativas políticas, não uma normalização confirmada da oferta, e qualquer novo ataque pode inverter rapidamente a queda.

O que aconteceu

O petróleo começou a semana em forte queda depois de Donald Trump afirmar que os Estados Unidos adiariam um novo ataque ao Irão para tentar concluir rapidamente um acordo. O Brent caiu 5,11%, para 83,44 dólares por barril, enquanto o West Texas Intermediate recuou 5,79%, para 79,77 dólares. Os preços tinham subido mais de 20% no mês anterior, após o regresso dos combates, ataques contra petroleiros e limitações à circulação no Golfo. A OPEP+ aprovou entretanto um aumento de cerca de 188 mil barris por dia nas quotas de produção para setembro.

Porque importa

Se o Estreito de Ormuz reabrir e o acordo avançar, a queda do petróleo poderá aliviar a inflação, os combustíveis, os transportes e a pressão sobre os bancos centrais. Se as negociações falharem ou ocorrer um novo ataque, parte da descida poderá ser rapidamente anulada. A volatilidade continua elevada e afeta diretamente empresas, consumidores e governos.

O que acompanhar

As negociações entre Washington e Teerão, a circulação efetiva no Estreito de Ormuz, novos ataques contra navios ou instalações, a produção real da OPEP+ e o impacto nos preços dos combustíveis na Europa.

FONTE ORIGINALReuters
02

Prysmian compra Atkore por 3,8 mil milhões de dólares

A aquisição reforça a presença da Prysmian na América do Norte e cria uma oferta integrada para eletrificação, centros de dados e infraestrutura de IA.

Cabos de energia e condutas industriais convergem numa infraestrutura de centro de dados

A operação é uma aposta direta na eletrificação e nos centros de dados, mas aumenta a exposição da Prysmian ao custo da integração e ao ciclo de investimento em IA.

O que aconteceu

A fabricante italiana de cabos Prysmian celebrou um acordo definitivo para adquirir a norte-americana Atkore por 95 dólares por ação, totalmente em dinheiro. A operação atribui à Atkore um enterprise value de aproximadamente 3,8 mil milhões de dólares, cerca de 3,3 mil milhões de euros, e representa um prémio de cerca de 23% sobre a média ponderada das ações nos 90 dias anteriores a 31 de julho. A Atkore teve receitas de 2,85 mil milhões de dólares e EBITDA de 386 milhões no exercício de 2025.

Porque importa

A Prysmian vende cabos de energia e comunicações; a Atkore acrescenta condutas, sistemas elétricos e produtos adjacentes. A combinação permite fornecer uma parte maior de cada projeto de eletrificação ou centro de dados. O risco está no preço pago, na integração operacional e na possibilidade de o investimento em centros de dados abrandar antes de a operação produzir as sinergias esperadas.

O que acompanhar

A aprovação dos reguladores e acionistas, o financiamento da operação, as metas de sinergias, a evolução das encomendas de centros de dados e eventuais reorganizações industriais.

FONTES ORIGINAISPrysmian Reuters
03

Receita de IRC em Portugal cai 16,7% no primeiro semestre

O Estado recebeu menos 643,6 milhões de euros de IRC, embora o crescimento do IVA tenha mantido a receita fiscal total em terreno positivo.

Documentos orçamentais portugueses e indicadores de receita fiscal sobre uma mesa institucional

A quebra reduz a margem orçamental imediata, mas não deve ser interpretada automaticamente como uma queda equivalente nos lucros das empresas.

O que aconteceu

A receita líquida de IRC atingiu 3.210,3 milhões de euros entre janeiro e junho, menos 643,6 milhões do que no mesmo período de 2025. A quebra homóloga foi de 16,7% e parte da diminuição resulta do aumento de 135,2 milhões de euros nos reembolsos e restituições. Apesar disso, a receita fiscal total do Estado cresceu 1,9%, para 29.089,3 milhões de euros. O IVA aumentou 7,9%, acrescentando 979,3 milhões, e a receita líquida de IRS subiu 3,1%.

Porque importa

A queda do IRC reduz a margem disponível para novas descidas de impostos, apoios extraordinários ou aumentos de despesa. Estes números são apurados em contabilidade pública e dependem do calendário de pagamentos, reembolsos e acertos fiscais; por isso, não equivalem automaticamente a uma quebra idêntica nos lucros das empresas. O crescimento do IVA mostra que o consumo continua a sustentar a receita, mas aumenta a dependência dos impostos indiretos.

O que acompanhar

A execução orçamental de julho e agosto, a evolução dos lucros empresariais, os pagamentos e reembolsos de IRC, o cumprimento da meta orçamental anual e novas decisões sobre IRS, pensões e apoios extraordinários.

FONTES ORIGINAISEntidade Orçamental Jornal de Negócios
04

Austrália aumenta pressão para tecnológicas financiarem jornalismo

Google, Meta, TikTok e LinkedIn poderão pagar uma taxa de 2,5% sobre receitas publicitárias se não celebrarem acordos com órgãos de comunicação australianos.

Plataformas digitais e jornais australianos ligados por um mecanismo financeiro regulatório

A Austrália volta a testar um modelo que outros países poderão copiar, mas as plataformas podem responder reduzindo a distribuição de notícias.

O que aconteceu

O Governo australiano aumentou de 2,25% para 2,5% a taxa prevista no News Bargaining Incentive. A taxa incidirá sobre as receitas publicitárias australianas das plataformas e abrangerá empresas com serviços significativos de pesquisa ou redes sociais e receitas locais superiores a 250 milhões de dólares australianos. Meta, Google e TikTok estão no âmbito esperado. A remoção da exclusão prevista para redes profissionais inclui também o LinkedIn. A legislação deverá ser apresentada quando o Parlamento retomar os trabalhos em agosto.

Porque importa

A Austrália volta a testar uma forma de obrigar as plataformas a partilhar receitas com quem produz notícias. O aumento da taxa endurece a medida, mas a redução da base tributável para apenas receitas publicitárias pode diminuir o valor final. Existe ainda o risco de as plataformas reduzirem a distribuição de notícias ou abandonarem acordos, como já aconteceu noutros conflitos regulatórios.

O que acompanhar

O texto final da legislação, o valor dos acordos celebrados, a reação de Google, Meta, TikTok e Microsoft, o impacto sobre pequenos meios regionais e uma eventual adoção do modelo noutros países.

FONTE ORIGINALReuters

ANÁLISE DE HOJE / POR IVO GOMES

Para além da manchete.

A leitura editorial desta edição liga os factos ao impacto nas empresas, em Portugal e no Luxemburgo — distinguindo riscos, oportunidades e sinais a acompanhar.

MÉTODO EDITORIAL

Notícia, contexto e fonte.

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