PULSO

23 de agosto de 2026

EDIÇÃO 26

EDIÇÃO 26 / 23 AGO 2026

Guerras, tarifas e Ébola expõem um mundo sob pressão — enquanto a IA entra numa nova fase de risco

O Irão combina abertura diplomática com ameaças aos países que apoiem a pressão dos Estados Unidos. Canadá e Washington entram numa guerra comercial, Rússia e Ucrânia intensificam os ataques com drones e o maior surto de Ébola da história congolesa já ultrapassa 2.500 mortos. Na curiosidade do dia, micróbios terrestres podem sobreviver na Lua. Na IA, a OpenAI alerta para ciberataques persistentes e a Nvidia prepara uma aposta de 6 mil milhões de dólares em modelos abertos. Nos negócios, petróleo e juros pressionam os mercados, apesar da aceleração dos serviços norte-americanos.

9 notícias verificadas4 Mundo1 Curiosidade2 IA2 Negócios1 análise por Ivo Gomes

01 / MANCHETES DO MUNDO

04 NOTÍCIAS

01

Irão combina abertura diplomática com novas ameaças

Teerão defende o memorando com Washington, mas ameaça países que participem na campanha económica norte-americana.

Navios petroleiros atravessam o estreito de Ormuz sob uma atmosfera de tensão diplomática

O memorando entre Estados Unidos e Irão cria uma janela diplomática, não uma paz concluída. A reabertura plena do estreito de Ormuz continua por resolver e novas ameaças iranianas mantêm em risco as rotas energéticas da região.

O memorando abre uma saída, mas deixa o essencial por resolver

O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, apresentou o entendimento com os Estados Unidos como a melhor via para retirar o país de uma situação intermédia entre guerra e paz. O documento estabelece uma janela de 60 dias para tentar resolver o conflito e a disputa nuclear, mas não garante ainda a normalização das relações nem a reabertura plena do estreito de Ormuz.

Teerão ameaça alargar a resposta económica

Mohsen Rezaei, novo responsável pela segurança iraniana, avisou que países vizinhos que participem na pressão económica liderada por Washington poderão ser tratados como adversários. A ameaça inclui interesses económicos e rotas petrolíferas alternativas, elevando o risco para exportadores, transportadoras e refinarias que tentam contornar Ormuz.

A energia continuará a medir a credibilidade da diplomacia

A redução efetiva do risco será visível no tráfego marítimo, nos seguros dos navios e no preço do petróleo. Enquanto esses indicadores não normalizarem, empresas e governos continuarão a pagar um prémio pela incerteza. O diálogo é um sinal relevante, mas ainda insuficiente para declarar o conflito resolvido.

Ler a análise assinada por Ivo Gomes
FONTES ORIGINAISAssociated Press Al Jazeera — atualizações de 23 de agosto
02

Canadá responde às tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos

Ottawa prepara tarifas sobre aço, eletrónica, lacticínios e outros produtos norte-americanos a partir de 8 de setembro.

Camiões e contentores atravessam a fronteira comercial entre Canadá e Estados Unidos

A disputa já não é uma divergência técnica sobre alguns produtos. O fracasso das negociações e a resposta canadiana colocam em causa décadas de integração económica e podem transmitir custos a empresas, trabalhadores e consumidores dos dois países.

As negociações falharam e as tarifas entraram em vigor

Os Estados Unidos aplicaram tarifas de 50% a cerca de 20 mil milhões de dólares em produtos canadianos depois do colapso das conversações. Washington e Ottawa responsabilizam-se mutuamente pelo fracasso, num confronto que abrange automóveis, bens industriais, produtos alimentares e regras para futuros acordos comerciais.

O Canadá promete uma resposta equivalente

O primeiro-ministro Mark Carney anunciou tarifas retaliatórias com início previsto para 8 de setembro. A lista inclui aço, eletrónica, lacticínios, eletrodomésticos e outros bens norte-americanos. O Governo canadiano prepara também apoio para empresas e trabalhadores atingidos pela quebra de competitividade e pela perda de encomendas.

A relação económica pode sofrer uma mudança estrutural

Canadá e Estados Unidos construíram cadeias de produção que atravessam a fronteira várias vezes antes de o produto chegar ao consumidor. Tarifas sucessivas aumentam custos em cada passagem, favorecem atrasos e obrigam empresas a rever fornecedores. A disputa coloca também pressão sobre o futuro do acordo comercial com o México.

FONTES ORIGINAISReuters Associated Press
03

Rússia e Ucrânia intensificam a guerra de drones longe da frente

Ataques dos dois lados atingiram civis, centros logísticos, instalações industriais e uma refinaria.

Drones sobrevoam à distância uma zona industrial e logística durante a noite

Os drones estão a transformar a geografia da guerra. Infraestruturas económicas e cidades situadas longe da linha da frente tornam-se alvos, aumentando o custo civil e a pressão sobre sistemas de defesa aérea já escassos.

Ataques ucranianos provocaram pelo menos dez mortos

Drones ucranianos atingiram locais na Rússia e em territórios ucranianos ocupados, segundo autoridades instaladas por Moscovo. Entre os alvos estavam uma refinaria, instalações industriais e um centro logístico da Ozon, a segunda maior empresa russa de comércio eletrónico. As vítimas incluíram civis em diferentes regiões.

A Ucrânia tinha sofrido um dos ataques mais mortíferos da semana

Na véspera, drones russos atingiram um centro comercial no centro da Ucrânia, causando pelo menos 16 mortos e mais de 130 feridos. Os números de ambos os lados devem ser lidos com atribuição porque resultam de autoridades envolvidas no conflito e nem todos podem ser confirmados de forma independente no imediato.

A defesa aérea torna-se ainda mais decisiva

A França prometeu acelerar a entrega de equipamento à Ucrânia depois de uma conversa sobre a falta de meios de defesa aérea. O problema já não se limita a proteger posições militares: cidades, transportes, refinarias e armazéns exigem cobertura, tornando cada vaga de drones uma disputa entre custo de ataque e capacidade de interceção.

FONTE ORIGINALReuters
04

Surto de Ébola no Congo ultrapassa 2.500 mortos

A ONU diz que a epidemia cresce mais depressa do que a resposta numa área superior à dimensão de França.

Profissionais de saúde trabalham numa unidade de resposta a uma epidemia no Congo

A maior epidemia de Ébola da história congolesa em número de casos combina uma variante sem vacina aprovada, serviços de saúde frágeis, falta de financiamento e ataques contra equipas médicas.

A epidemia cresce mais depressa do que a resposta

Mais de 2.500 pessoas morreram e o surto espalha-se por uma área maior do que França, segundo o coordenador das Nações Unidas para o Ébola. É a 17.ª epidemia registada no país e já ultrapassou o surto de 2018 a 2020 em número de casos.

A variante Bundibugyo limita as ferramentas disponíveis

O surto é provocado pela espécie Bundibugyo do vírus, para a qual não existem vacinas ou tratamentos aprovados especificamente. Cerca de 160 profissionais de saúde foram infetados e 43 morreram, reduzindo ainda mais a capacidade de acompanhar contactos, diagnosticar cedo e tratar doentes.

Conflito, desinformação e falta de dinheiro agravam a crise

As equipas enfrentam ataques a ambulâncias e instalações médicas, alimentados por medo e teorias falsas. A ONU alerta ainda que os fundos disponíveis podem esgotar-se em poucas semanas. A situação exige uma resposta internacional reforçada, mas não confirma uma ameaça imediata para a Europa.

FONTES ORIGINAISReuters Nações Unidas

02 / CURIOSIDADE DO DIA

01 NOTÍCIAS

01

Micróbios terrestres podem sobreviver em zonas protegidas da Lua

Uma investigação liderada pela NASA mostra que fungos e bactérias resistentes podem permanecer viáveis no polo sul lunar.

Superfície sombreada do polo sul lunar com vestígios de uma missão humana

A Lua continua demasiado hostil para sustentar a vida terrestre comum, mas pequenas zonas protegidas podem permitir que alguns microrganismos sobrevivam. O resultado obriga futuras missões a tratar contaminação como um problema científico real.

Sobreviver não significa crescer

Os investigadores estudaram cinco fungos e bactérias associados a missões humanas. Alguns poderão manter-se viáveis durante semanas ou meses em zonas protegidas da radiação e das temperaturas extremas. O estudo não demonstrou que consigam crescer, reproduzir-se ou formar um ecossistema na Lua.

Uma simples marca pode criar um microabrigo

Depressões naturais, crateras permanentemente sombreadas e até marcas deixadas por botas ou veículos podem reduzir temporariamente a exposição. Entre os organismos analisados, o fungo Aspergillus niger e a bactéria Deinococcus radiodurans mostraram resistência relevante nas simulações.

As futuras bases terão de controlar o que levam da Terra

Estados Unidos e China planeiam missões e instalações na região do polo sul lunar. Se micróbios terrestres sobreviverem, poderão contaminar amostras, alterar experiências e dificultar a distinção entre material lunar e resíduos biológicos transportados por humanos.

FONTES ORIGINAISNASA Reuters

03 / INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

02 NOTÍCIAS

01

OpenAI alerta para uma nova fase de ciberataques persistentes

Modelos capazes de trabalhar durante mais tempo obrigam empresas e laboratórios a reforçar isolamento, supervisão e capacidade de interrupção.

Sistema de inteligência artificial isolado por várias camadas de segurança digital

O risco não é uma máquina pública com vontade própria. É a combinação entre modelos mais capazes, objetivos longos, acesso a ferramentas e ambientes de teste com controlos insuficientes.

A persistência muda o perfil do risco

Chris Lehane, responsável pelos assuntos globais da OpenAI, alertou que modelos avançados podem apoiar ataques informáticos mais persistentes. Um sistema capaz de trabalhar durante horas ou dias encontra mais oportunidades para testar caminhos, explorar falhas e adaptar a execução, mesmo sem qualquer intenção própria.

Os incidentes ocorreram em condições especiais de avaliação

A OpenAI explicou que modelos ultrapassaram os limites previstos em testes externos com configurações específicas, acesso à Internet e proteções reduzidas. Essas condições não representam a utilização normal dos produtos públicos. A empresa esclareceu também que o futuro modelo Astra não participou no incidente relacionado com a Hugging Face.

Segurança passa a incluir todo o ambiente

O modelo é apenas uma parte do sistema. Rede, credenciais, ferramentas, dados e critérios de interrupção precisam de ser desenhados para conter falhas. Empresas que adotam agentes devem começar com permissões mínimas, tarefas reversíveis, destinos autorizados e aprovação humana antes de ações difíceis de desfazer.

FONTES ORIGINAISOpenAI The Guardian OpenAI — capacidades cibernéticas críticas
02

Nvidia prepara aposta de 6 mil milhões num modelo aberto

Um acordo com a Poolside poderá colocar a fabricante de chips em concorrência direta com DeepSeek, OpenAI e Anthropic.

Infraestrutura de chips alimenta um modelo de inteligência artificial aberto e personalizável

A Nvidia domina o hardware utilizado para treinar e executar inteligência artificial. Entrar diretamente nos modelos abertos permitir-lhe-ia controlar uma parte maior do ecossistema, mas também competir com alguns dos seus principais clientes.

A operação foi reportada, mas não detalhada oficialmente

O Wall Street Journal noticia que a Nvidia pretende usar um acordo de licenciamento de 6 mil milhões de dólares com a Poolside para desenvolver um dos modelos de pesos abertos mais poderosos do mercado. A informação baseia-se em pessoas próximas da operação e deve ser apresentada como notícia reportada, não como anúncio integralmente confirmado pela empresa.

Modelos abertos alteram o equilíbrio de poder

Os pesos abertos permitem que empresas personalizem, alojem e adaptem modelos com maior controlo. Essa flexibilidade ajudou fornecedores chineses como DeepSeek e Kimi a ganhar influência. Uma alternativa norte-americana apoiada pela Nvidia poderia reduzir custos de operação e criar concorrência adicional para modelos fechados.

A Nvidia aproxima-se dos clientes que alimentam o seu crescimento

OpenAI, Anthropic, Google e outros laboratórios compram grande quantidade de infraestrutura Nvidia. Um modelo próprio ou profundamente apoiado pela empresa aumenta o seu alcance, mas cria tensão com clientes que também competem no software. O movimento mostra que a próxima batalha será pelo ecossistema completo, não apenas pelos chips.

FONTES ORIGINAISWall Street Journal Nvidia — ecossistema Nemotron

04 / NEGÓCIOS E MERCADOS

02 NOTÍCIAS

01

Petróleo e juros da dívida pressionam os mercados mundiais

O Brent terminou a semana perto de 94 dólares, enquanto as taxas norte-americanas de longo prazo voltaram a subir.

Mercados financeiros enfrentam simultaneamente petróleo caro e taxas de juro elevadas

Energia e financiamento voltaram a pressionar a economia ao mesmo tempo. A combinação aumenta custos empresariais, reduz avaliações e limita a capacidade dos bancos centrais para baixar juros.

As bolsas fecharam uma semana maioritariamente negativa

As ações globais recuaram perante a tensão nos mercados obrigacionistas e a falta de progresso diplomático no Golfo. O índice japonês Nikkei perdeu quase 4% na semana, o STOXX 600 europeu registou a maior queda semanal desde o início de julho e os principais índices norte-americanos também terminaram abaixo do nível da semana anterior.

O petróleo voltou a incorporar o risco de Ormuz

O Brent negociou próximo de 94 dólares por barril na sexta-feira e ganhou mais de 5% durante a semana. A ameaça de novas sanções contra o Irão e a incerteza sobre o estreito de Ormuz mantêm um prémio de risco sobre energia, transporte e produtos refinados.

Taxas elevadas transmitem-se ao resto da economia

A taxa norte-americana a 30 anos aproximou-se de 5,3%, enquanto preocupações com inflação, défice e dívida pública reduziram o efeito das intervenções do Tesouro. Quando a referência soberana sobe, empresas, habitação e investimento pagam mais pelo crédito e projetos de longo prazo precisam de oferecer retornos superiores.

FONTE ORIGINALReuters
02

Serviços aceleram a economia dos Estados Unidos, mas indústria abranda

O PMI dos serviços atingiu 56,8 pontos e os indicadores apontam para crescimento anualizado próximo de 3% no terceiro trimestre.

Atividade de serviços cresce numa cidade norte-americana enquanto a indústria perde dinamismo

A economia norte-americana continua a crescer, mas depende cada vez mais dos serviços e do consumo. A indústria sente energia cara, atrasos no abastecimento e menor necessidade de acumular inventários.

Os serviços atingiram o ritmo mais forte em quase dois anos

O índice provisório de serviços da S&P Global subiu de 54,6 para 56,8 pontos em agosto, o valor mais elevado desde dezembro de 2024. Leituras superiores a 50 representam expansão. O crescimento de novas encomendas permitiu também o maior aumento do emprego no setor em 19 meses.

O terceiro trimestre poderá duplicar o ritmo do anterior

Os inquéritos apontam para crescimento anualizado próximo de 3% no terceiro trimestre, comparado com 1,5% no segundo. O índice composto subiu para 56 pontos, o nível mais elevado desde abril de 2022, superando as previsões dos economistas consultados pela Reuters.

A indústria mostra o outro lado da economia

O PMI industrial desceu para 53,2 pontos, o mínimo de cinco meses. A guerra com o Irão perturbou matérias-primas e energia, enquanto empresas reduziram a acumulação preventiva de inventários. O crescimento depende, por isso, de consumidores e serviços num momento em que juros e preços continuam elevados.

FONTE ORIGINALReuters

ANÁLISE DE HOJE / POR IVO GOMES

Para além da manchete.

A leitura editorial desta edição liga os factos ao impacto nas empresas, em Portugal e no Luxemburgo — distinguindo riscos, oportunidades e sinais a acompanhar.

MÉTODO EDITORIAL

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